Sobre Deus, verdade, amor, fé, vida e outras coisas nem sempre definíveis.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Sobre um possível sentido sem Deus
Para que viver? Qual o sentido desta labuta terrenal? Trata-se de uma pergunta importantíssima, cuja solução orienta as decisões que tomamos e molda as nossas atitudes. A resposta do ateísmo - não aquele implicante, movido mais por despeito do que por amor à verdade - configura uma alternativa de argumentação a ser levada em conta seriamente por qualquer pensador. Se Deus não existe, a vida adquire um sentido bastante diferenciado. Afinal, estamos acostumados a nos relacionar segundo valores carregados de heteronomia, por influência marcadamente religiosa. Fazer o bem, ser honesto, ser cortês tornam-se, em tal perspectiva, comportamentos resultantes de convicções forjadas por uma educação moral, ligada a conceitos nem sempre assumidos de maneira explícita, mas construídos com base na ideia de Deus, sábio, onipotente e remunerador. Em outras palavras, comportamo-nos bem por causa do Bem supremo, de quem esperamos a salvação e, às vezes, tememos o castigo. Sem Deus, nossa esperança seria outra e, a partir daí, teríamos motivações diversas para agir. Qual a ética do ateu? O que o impede de agir mal, prejudicando o próximo em benefício próprio? Imaginemos uma situação-limite, na qual dois homens se encontrassem sozinhos numa ilha deserta, sem leis e sem qualquer constrição exterior. Entregues somente à sua consciência, os dois seriam ateus. Imaginemos que um, para sobreviver, pensasse em matar o outro, por insuficiência do alimento disponível para os dois. Nessa hipótese, a morte do próximo resultaria, sem dúvida, vantajosa. Qual o obstáculo para que o potencial assassino efetive a sua vil intenção? Deus não existe para ele. Leis, naquele lugar, não há, nem polícia, nem juiz. Penso haver uma única saída para salvar o altruísmo e permitir a convivênvia civilizada, colocando-nos do ponto de vista ateu. O primeiro passo é não recorrer a situações-limite. A hipótese descrita acima seria excluída pelo simples fato de não ser verossímil, a menos que os dois ilhados fossem os últimos homens da terra. Mas, a sociedade existe, e o que determina a convivência é a busca da felicidade de cada um no confronto com o interesse de todos. Os seres humanos ganharam da evolução biológica a incrível capacidade de se organizar mediante um certo contrato social, para usar a famosa expressão de Hobbes, Locke e Rousseau. E não é um contrato simplesmente político, mas verdadeiramente existencial. O ser humano outra coisa não quer senão sobreviver e gozar de sua existência. Para tanto, há regras a se observar, com o fito de permitir que a coletividade usufrua dos benefícios da vida. Sem regras, chegaríamos à extinção da espécie. Assim, eu oriento minha liberdade, em certos casos, preferindo o bem do próximo ao meu próprio bem imediato, para que todos possamos sobreviver e tirar o máximo proveito do tempo que nos resta. É inevitável tal submissão às normas de conduta, caso queiramos preservar a própria integridade física e a permissão de ir e vir. As exigências da sociabilidade seriam a explicação última para os imperativos que nos impedem de matar, roubar, sequestrar, etc. E isso sem apelar para nenhuma divindade ou lei eterna. Tudo se organizaria conforme as circunstâncias culturais de cada época, sempre visando ao bem geral mediante a articulação entre os interesses particulares e os comuns. Essa explicação não exclui a possibilidade de, pelo menos na situação-limite apontada, mesmo que inverossímil, ocorrer um assassinato, justificável de alguma maneira. Também não se condena, na postura filosófica ateia, o recurso ao suicídio por parte de quem não se deixa levar pelo instinto de sobrevivência e se frustra com a vida. Entretanto, ao fundamentar no instinto gregário e na sociabilidade as relações entre os seres humanos, a ética ateia dá o seu contributo para a compreensão do sentido da existência e formula uma teoria da ação intelectualmente responsável, a qual deve sempre ser considerada com respeito na pesquisa filosófica.
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Quem sou eu
- Tarcísio Bráulio Gonçalves
- Sou cristão sem domicílio eclesiástico, sou herege de religião sem amor, sou ateu de deuses tiranos, sou poeta da alegria e da dor.