domingo, 23 de outubro de 2011

Poemas do juízo de Deus

I

Os cânticos do juízo final,
Numa louca sinfonia da cruz,
Travestida do poder do bem,
Que do mundo para o céu conduz.
Julgamento das nações pagãs,
Infratoras do amor humano,
Resta-nos a esperança de vir
E revelar de Deus o plano.
O Absoluto só quer o bem
Dos mortais desejosos de luz
E dos sonhos enamorados,
Contra vozes entorpecidas
Que aspiram à destruição
Dos abraços apaixonados.

II

Enfraquecidas imagens
De um passado tão distante,
Como ideias a desvanecer
Na solidão de um instante.
São lembranças das origens
E da primeva palestra,
Pronunciada pelo Verbo
Ao universo ainda em festa.
Tais diáfanas seguranças
Alimentam minh'alma
Se vividas em profusão.
Encarnam-se na fantasia,
Acolhem a deusa amada
E a conservam no coração.

III

Preso a meu amor insano,
Perseguido pelo mal
Dos conceitos ferinos
De roupagem divinal.
Com o beijo da amada
Me sacio plenamente,
Mas o mundo não espera
E apressa a dor ingente.
E somos separados,
Quais bandidos imorais,
Sem qualquer explicação.
Nos cárceres do saber,
Excluídos nossos sonhos,
Afastada toda ilusão.

IV

Mas vem, enfim, forte e radiante,
De Deus o juízo sempiterno,
Forjado não em claustros hediondos,
E sim no sol do amor eterno.
Junta-nos em fogo o tribunal
Do conselheiro onipotente
E revela a todos de uma vez
A verdade por fim presente:
Somos filhos do ardor cósmico
Do Transcendente enamorado,
E nossa culpa é nossa glória!
Amemo-nos, pois, loucamente,
Louvemos o Deus manifesto
Pelas paixões de toda a história.

sábado, 13 de agosto de 2011

Saber viver

Saber viver é uma arte exigente. É algo simples, mas também profundo. Nada mais simples do que apenas curtir o tempo reservado a nós, sem preocupações e anseios vãos. O “carpe diem”, no entanto, não escapa das dificuldades da vida, presa entre a positividade de uma existência e a negatividade de sua constante dissolução. Daí, a exigência de um toque de sabedoria, que nos concede a profundidade para o alcance da serenidade e da confiança.
Ser sábio é convencer-se todo dia do imperativo ético basilar: devemos fazer o bem e evitar o mal. Tal convencimento não é ordinariamente mediado pela especulação filosófica, embora esta tente traduzi-lo das mais variadas formas. No senso comum, trata-se de uma reflexão quase intuitiva, apta para revelar o quanto o bem nos promove e o mal nos destroça. Fazer o bem é a concretização da natural tendência humana à abertura e ao encontro. Não somos feitos para nós mesmos. Relacionar-se é inerente à condição do homem e da mulher, desde a concepção. Ao cuidar do outro, meu ser também cuida de si, pois se realiza como gente, ontológicamente capaz de sobrepor aos instintos egoístas a inteligência e o incondicional altruísmo. Cada um de nós possui, dessa maneira, a vocação metafísica, fundada no ser, de ir além, de ser mais, de promover e de ser promovido. Em outras palavras, temos o direito radical de ser felizes, associado à missão de espalhar felicidade.
O bem é aquilo que contribui para a perfeição da criatura. A vida humana tem, pois, um caráter radicalmente positivo. Somos chamados a agir, a não ficar parados, mesmo nas ocasiões de “ócio criativo”. Isso nos realiza. Porém, a ordem de evitar o mal revela a ausência de ser, a privação daquilo que deveria existir mas não existe. O mal, como falta do bem devido, torna a vida um autêntico drama, ao enchê-la de negatividade. Ao mesmo tempo em que buscamos o bem, defrontamo-nos com o mal, manifesto sobretudo nos eventos trágicos que não sabemos explicar. Que bem maior se pode esperar da morte da criança inocente? Deus permite isso? Mas tal permissão, para um Ser que é causa total e absoluta do universo, não equivaleria, como argumentou Kant, a um querer positivo? Bem, as respostas definitivas se farão esperar enquanto estivermos neste mundo. Resta-nos viver, com o otimismo de quem se convenceu de que o melhor caminho é fazer bem e com o realismo de quem luta para evitar o mal.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A fonte do coro

Há gestos, palavras, emoções, risos e fadas
no lugar donde eu vim.
Espectros apontam no horizonte
a fonte do coro sempre eterno
no coração de quem ama
e sofre por amar.
Porque cada gesto ou palavra
do desejado céu são convites
a viver sem pensar em morrer,
canto e espero ouvir a voz sonora
de um doce amanhã.
Dos sons sobrevivo à espreita do céu,
do tão caro paraíso na terra da fonte,
da fonte do coro do meu coração.
Sinfonia, melodia, a cada minuto
um surto de poesia
sem meu recanto.
O sonho de que padeço,
a doença que me alucina...
E vem, e vem, e seu sorriso me descobre.
É a cidade a descer do céu,
meu paraíso à procura de mim.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Entre a identidade e o diálogo

Num mundo globalizado, com várias redes sociais e culturais, a capacidade de diálogo é determinante para a promoção de uma boa convivência. Porém, nem sempre se consegue conciliar a necessária abertura ao outro com a preservação da própria identidade. Os conflitos religiosos talvez sejam a melhor amostra disso, embora pontos de vista divergentes gerem conflitos nos mais variados setores. É preocupante como, apesar de avanços tecnológicos promotores de uma integração humana espetacular, ainda haja tantos focos de resistência reacionária, concentrados em minar a força e a beleza da alteridade. O reconhecimento da verdade alheia é tido por inimigo mortal de uma experiência pessoal e comunitária historicamente condicionada. No universo cristão, por exemplo, o obsoleto exclusivimo do período anterior ao Vaticano II sobrevive na mentalidade de muitos fiéis, os quais têm na demonização do diferente uma ocupação quase obrigatória, confundida até com uma missão recebida do alto. Falam de respeito e tolerância mais por oportunismo do que por convicção, porquanto não perdem a menor oportunidade para enfatizar o caráter supostamente absoluto de sua doutrina. Um sadio senso da relatividade das formas religiosas, que não deve ser confundido sem mais com o relativismo, é ausente da teoria e da prática de tais pessoas, levando a uma confusão acrítica e preconceituosa entre unidade e uniformidade. A saída do impasse parece estar justamente no enfrentamento da tensão dialética da identidade com o diálogo, em busca de uma síntese construtiva, que leve à verdadeira paz entre as religiões, sem a qual não haverá paz no mundo, como diria Hans Küng. Enfrentar essa tensão significa reconhecer, em primeiro lugar, o caráter irredutivelmente misterioso de Deus. Dele sabemos bem menos do que aquilo que não sabemos, ensina-nos Santo Tomás de Aquino. Querer limitar o único Absoluto a uma determinada forma de concebê-lo é cair numa contradição insuperável. A teologia cristã começou a perceber isso e forjou uma tentativa conciliadora com o chamado inclusivismo, tanto do lado católico (Danielou, Von Balthasar, Rahner) como do protestante (Tillich). Entretanto, o inclusivismo não passa de uma forma atenuada de exclusivismo, pois ainda considera o cristianismo a única religião verdadeira. As outras expressões religiosas teriam o seu valor, que, para Karl Rahner, seria inclusive sobrenatural; porém, a graça atuante nelas seria "graça própria da Igreja de Cristo", tendente à "unidade católica". Ou seja, Cristo continua sendo o causador constitutivo e absoluto da salvação, mesmo fora dos limites visíveis da Igreja. Um salto qualitativo tem sido dado por outros teólogos, para os quais nem o exclusivismo nem o inclusivismo servem para o atual paradigma civilizacional. Para eles, o pluralismo religioso é um dado insuperável e positivo. Essa posição, defendida com diferentes matizes por John Hick, Paul Knitter, Jacques Dupuis, Claude Geffrè, Roger Haight, dentre outros, propugna um cristianismo aberto, centrado no Reino de Deus e afastado de um conceito de Deus seletivo e favoritista, segundo o qual seria aceitável a escolha de um único povo e uma única igreja como depositários da verdade. A teologia do pluralismo religioso assume radicalmente a noção do amor gratuito de Deus, amor presente em todas as religiões, sem privilégios de qualquer natureza. Na visão de Roger Haight, não se transgride o princípio de identidade quando entendemos Cristo como normativo para a salvação dos cristãos, e não para a salvação dos não cristãos. Trata-se da profissão de fé na presença misteriosa do Espírito, que sopra onde quer, sem que precisemos apelar para o "sacramento da ignorância" como justificativa da salvação de quem não faz parte de nossa religião. Obviamente, a postura pluralista causa incômodos nos círculos eclesiásticos mais conservadores, dando azo a condenações arbitrárias e teologicamente infundadas, como no caso do próprio Roger Haight. Não obstante, assim como a Igreja Romana passou, excetuando-se alguns círculos fanáticos, do exclusivismo para o inclusivismo no Concílio Vaticano II, espera-se que o passo no sentido do pluralismo, já dado por vários pensadores, seja assumido por todos os seguidores de Cristo. Quem condenou Galileu e Teilhard de Chardin, retratando-se depois, pode desfazer, um dia, os mal-entendidos gerados por uma visão demasiado estreita de Deus e do seu amor pelo ser humano.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Psicologia do tempo

Do passado guardo marcas,
Mas não as malfadadas,
E sim as do aprendizado
Construído apesar dos erros.
No presente, quero o bem
Em tudo o que faço,
pois do bem feito e do mal evitado
Nasce a salvação.
Não importa onde, quando
Ou que enfeite portemos:
As circunstâncias são detalhes,
E o essencial é o amor.
Para o futuro faço planos,
Fundados no presente,
Sem ilusões superficiais,
Com a profundidade de um belo sonho.

terça-feira, 8 de março de 2011

O homem integral e a empresa contemporânea

Há quem diga que o maior mistério para o homem é o próprio homem. De fato, nossa existência, em grande parte, delineia-se sob o signo do desconhecido, sem podermos passar do silêncio em muitas questões. Uma certeza, porém, vem tomando conta de vários campos do saber, penetrando até mesmo em setores prevalentemente orientados para os resultados e a eficiência material: o ser humano é um todo psicossomático, e somente considerando todas as suas dimensões, poderemos ter uma ideia aproximada de suas potencialidades mais relevantes. A dimensão transcendente já não é reservada para os discursos religiosos. Muitas filosofias ajudam-nos a interpretar os relacionamentos humanos a partir de uma ótica holística, levando em conta o contato do homem consigo mesmo, com os seus semelhantes e com o cosmo. Pela palavra cosmo, costumamos entender o universo captável com os recursos da ciência experimental. No entanto, ao dizermos "mundo", implicitamente colocamos a questão do "além-mundo", pois inevitavelmente assumimos uma perspectiva que nos situa perante o todo uno da realidade como tal. E isso é já uma metafísica em gestação, atemática, embasando um conhecimento natural e pré-filosófico do chamado plano espiritual. Na verdade, os que negam qualquer aspecto transcendente na vida humana não podem fazê-lo sem antes colocar a própria questão do transcendente. A abertura do ser humano ao além de si mesmo aparece como condição da dúvida e da negação. É precisamente essa independência ontológica e operacional em relação aos limites corpóreos que distingue nossa espécie. Assim, uma reflexão sensata acerca do humano em sua integralidade, independentemente do sentido que se dê ao termo "espiritual", é o fundamento para uma abordagem produtiva e edificante do bem comum pretendido nas relações interpessoais. Trata-se de um visão presente, como dissemos, em vários setores da atividade humana. No mundo corporativo, por exemplo, há os que falam da prioridade do humanismo, inserindo nas tramas empresariais o fio condutor do sentido último da vida, critério indispensável para uma gestão de pessoas sintonizada com as novas exigências da pós-modernidade. Não dá mais para se conceber um funcionário como uma mera engrenagem no sistema: é um ser humano, com necessidades materiais e afetivas, e uma abertura inevitável ao transcendente, nem que seja para negá-lo. Técnicas administrativas e táticas de liderança pouco conseguirão sem atender às exigências sugeridas pela consideração atenta desses fatores. A empresa contemporânea não precisa renunciar às expectativas de crescimento financeiro e nem fugir da competitividade inerente ao modo de produção capitalista. O enfoque dado ao capital humano, no entanto, deve afastar-se urgentemente da premissa neoliberal, que coloca o lucro acima da pessoa e o trabalho objetivo acima do trabalhador. Enquanto o ser humano integral não for a verdadeira medida das coisas nas relações trabalhistas, nenhuma empresa conseguirá cumprir, com autenticidade, sua responsabilidade cidadã. O contributo dos gestores que, por sua vez, conseguirem integrar, em seus parâmetros de análise e de conduta, os resultados de pesquisas sérias sobre as diversas dimensões do mistério humano será inestimável para a construção de uma sociedade justa e com oportunidade para todos.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Filosofia do cotidiano

"Nada de novo debaixo do sol." Essa conhecida constatação do livro bíblico do Eclesiastes não traduz somente um sadio sentimento realista diante das novidades e modas de ontem e hoje. O ser humano, em sua sede de infinito, pouco se satisfaz com o que tem em suas mãos: busca sempre um algo mais, sinal evidente de uma aspiração interminável. Porém, no caminho rumo à felicidade, existe o muro renitente das limitações; e, na impossibilidade de realizar tudo que queremos, preferimos manter-nos seguros em opções prontas, acabadas, organizando o dia a dia com critérios de praticidade e eficiência, interessados basicamente na luta pela sobrevivência e conservação da prole. Os grandes ideais são sorvidos pela corrente do cotidiano nivelador, que iguala tudo e tende a cancelar o sentido do extraordinário, ao reduzir conquistas e sonhos a inúteis devaneios. Sem querer valorar, do ponto de vista moral, a intenção do autor do Eclesiastes, reconhecidamente um grande filósofo, podemos dizer que sua constatação, não isenta de pessimismo, é um típico exemplo do jeito profundamente humano de lidar com as surpresas nossas de cada dia. Num oportunista mecanismo de defesa, aprendemos a domesticar o novo e a torná-lo convencional, não dando espaço para a irrupção independente do inusitado. Há uma estrutura categorial destinada a alocar mentalmente os eventos e a selecioná-los conforme nossos interesses vitais, ligados aos instintos básicos de alimentação, sociabilidade e propagação da espécie. Permitimo-nos certos momentos de alegria e de espanto, mas logo nos enclausuramos na mesmice imperante de nosso universo de discurso. No limite, podemos exclamar com Schopenhauer: "A vida é dor, a história é cego acaso, e o progresso é ilusão"! Assim, resta-nos viver instante por instante, sem elevadas expectativas, apenas com o inevitável e inconfessado desejo de ser felizes. Num misto de frustração e conformismo existencial, sentimo-nos alheios aos avanços qualitativos do tempo, com o coração voltado para o alto, sem poder tocá-lo, e os pés fincados no chão da dura realidade de raras esperanças e muitos esforços. Uma alternativa a quem não concorde com tal atitude reside na revolta contra o peso da monotonia, mediante as válvulas de escape tão conhecidas do mundo moderno, capazes tanto de distender o espírito como de desfigurar a personalidade. Isso, no entanto, só se faz ao preço singular de romper com o estabalecido, em luta contra os padrões da sociedade e os bloqueios do próprio ego. Um tal heroísmo não é exigido de todos, mas se faz sempre mais necessário em nossos dias.

Quem sou eu

Minha foto
Sou cristão sem domicílio eclesiástico, sou herege de religião sem amor, sou ateu de deuses tiranos, sou poeta da alegria e da dor.