Sobre Deus, verdade, amor, fé, vida e outras coisas nem sempre definíveis.
sábado, 4 de setembro de 2010
Hawking e o ser
"Por haver uma lei como a gravidade, o universo pode e irá criar a si mesmo do nada. A criação espontânea é a razão pela qual algo existe ao invés de não existir nada, é a razão pela qual o universo existe, pela qual nós existimos." Essas palavras de um dos mais famosos e prestigiados cientistas de nosso tempo, o britânico Stephen Hawking, publicadas pelos jornais e sítios de notícias de todo o mundo nos últimos dias, instigam-nos à reflexão, pois dizem respeito à questão das questões: por que existe o ser e não o nada? Aliás, tal pergunta tem inspirado, de maneira direta ou indireta, os textos deste humilde blog. Hawking dispensa Deus da criação do universo, apelando para conceitos como a lei da gravidade e a criação espontânea, e dando a entender que o ser criou a si mesmo do nada. Sem querer refutar o grande astrofísico - mesmo porque não lemos ainda todo o seu novo livro, do qual foram tiradas suas mais recentes declarações polêmicas -, gostaríamos de relembrar um dado fundamental para a compreensão teórica e histórica da problemática da existência. Trata-se do fato de o conceito do nada só poder se delinear a partir da ideia judaico-cristã de criação. Sim, porque para os gregos, como Aristóteles, o hipótese de um mundo sem começo temporal não representava nenhuma contradição. A perenidade do mundo não é excluída sequer pela filosofia escolástica, enquanto a criação é definida em termos ontológicos, não cronológicos, como a absoluta dependência das coisas, até o mais profundo do seu ser, em relação a Deus. As criaturas não têm em si mesmas a razão do seu ser, pois, se a tivessem, existiriam de modo absoluto e necessário. A contingência aponta para Deus, ser por si subsistente e fundamento do ser, independentemente de ter havido ou não um início cronológico do universo. A ideia de criação temporal é de caráter bíblico-teológico e não se impõe do ponto de vista meramente racional. Porém, sua aparição no mundo das ideias significou o surgimento simultâneo da pergunta sobre o nada. Falar da criação do ser nos leva, naturalmente, a pensar no não ser. E só se pode postular que algo surge do nada supondo um início metafísico de tudo. Se Stephen Hawking e outros cientistas chegaram à conclusão de que o universo criou a si mesmo, terão de se declarar devedores do conceito de criação temporal naquilo em que ele influencia a indagação sobre o nada. Chegados a esse ponto, sua posição teórica não poderá escapar do embate contra uma das intuições ontológicas mais poderosas da humanidade: do nada, nada se faz. Aí, a pesquisa se desenvolverá num grau de abstração mais filosófico, acima do campo de discurso das ciências experimentais e exatas. Preparados ou não para isso, nossos cientistas se encontrarão com as profundas exigências do mistério do ser, fundadas na radical autoinsuficiência inteligível das coisas, que não podem existir sem uma razão de ser fora de si mesmas.
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Quem sou eu
- Tarcísio Bráulio Gonçalves
- Sou cristão sem domicílio eclesiástico, sou herege de religião sem amor, sou ateu de deuses tiranos, sou poeta da alegria e da dor.