domingo, 19 de dezembro de 2010

O papel da religião

Mais e mais me convenço de que as religiões não têm outro papel senão o de institucionalizar o relacionamento com Deus, com base no caráter intrinsecamente social das interações humanas. Afinal, o homem é um animal social ou político até em sua relação com o Transcendente. Isso, em princípio, não é ruim nem constitui uma corrupção da natureza; porém, priorizado o aspecto institucional, em detrimento da espontaneidade do Espírito, a religião pode se tornar um empecilho à nossa autêntica realização. Na verdade, as religiões nada mais são do que expressões culturalmente variadas de uma mesma intuição do Absoluto. À luz da atual teologia pluralista, não se pode dizer que uma única forma religiosa seja a verdadeira. Não se encaixa no moderno paradigma civilizatório a concepção do cristianismo, por exemplo, como único caminho para se chegar à salvação. O recurso aos tradicionais "preambula fidei", como os milagres, supostamente exclusivos da Igreja, não convence mais. Não há nada de razoável em se dizer que apenas uma interpretação seja válida diante do pluralismo de ideias e tendências, reveladoras não de um relativismo incapaz de fornecer segurança na análise racional, mas da relatividade das expressões filosóficas e religiosas na interminável busca da verdade, da qual ninguém é dono. Todas as religiões são verdadeiras, embora cada uma tenha suas características e grau próprio de maturidade no fornecimento de subsídios para a felicidade do ser humano. Minha adesão ao cristianismo católico ou ao evangélico, ou ainda a outras linhas espirituais, não combina, num universo religioso globalizado, com o exclusivismo teológico de um Karl Barth, nem com o insuficiente inclusivismo de Rahner, mas se abre à perpectiva libertadora que enxerga no diferente não um adversário ou potencial condenado, e sim um irmão que caminha, numa estrada diversa, em direção ao mesmo destino de todos, o Deus Pai e Mãe que não faz acepção de pessoas. A pertença a uma religião é muito mais uma questão cultural, fruto das circunstâncias existenciais de alguém, do que resultado de uma eleição ou privilégio determinado do alto. Tal pertença, no entanto, não é um dado desprezível. Na verdade, grande parte de nós se encontra com Deus no seio de uma família religiosa, sob a tutela de regras, rituais e estruturas de poder necessárias para a organização social da fé. Trata-se, porém, de um instrumental a ser tomado como meio, não como fim em si mesmo. O fim supremo é Deus, o único realmente absoluto. A Ele chegamos de maneiras variadas, conforme nossa formação ao longo da vida. Deve-se amar uma religião não por ser supostamente a detentora privilegiada de todos os meios de salvação, mas por determinar, em certo sentido, nosso lugar no mundo e representar uma mediação importante no relacionamento com Deus. Asseveremos, porém, que a própria relatividade das formas religiosas impede-nos de considerar absolutamente indispensável ter uma religião para se aprimorar na espiritualidade. Há, pelo menos, três caminhos possíveis de realização humana, a depender das escolhas de cada um: a) nunca pertencer a nenhuma religião, mas desenvolver-se pelo caminho espiritual de uma ética laica, fundamentada em valores universais, aceitando ou não um Ser absoluto; b)aderir a uma religião e encontrar nela, parcial ou totalmente, o ambiente ideal para um desenvolvimento pessoal e comunitário integrador; c) aderir a uma religião e depois abandoná-la, preferindo alimentar a espiritualidade independentemente de estruturas religiosas. Não há condições de se afirmar que um desses caminhos seja mais válido que os outros. Em princípio, os três são verdadeiros, em suas múltiplas manifestações. Particularmente, reconheço no terceiro uma possibilidade evolutiva em relação ao segundo, sem fazer qualquer juízo de valor. Ser um teísta liberal ou pluralista tem sido, de fato, a minha opção de vida, o que não me faz melhor que ninguém. Meu teísmo vê na religião católica, da qual eu saí, um estágio de evolução espiritual, no qual muitos encontram o sentido de suas vidas. Quanto a mim, persigo esse sentido fora de qualquer parâmetro tipicamente institucional, à espera de, um dia, alcançar o termo dos anseios mais profundos de todo homem.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Sobre a amizade

Sei que Aristóteles e tantos outros já escreveram sobre amizade. Não há nada de muito original em lembrar que ela é "uma alma em dois corpos" ou coisa semelhante. Porém, gostaria de refletir um pouco sobre o caráter dramático e existencialmente conflitivo dessa relação tão essencial na nossa vida. A começar pela sua definição ou tentativa de definição. Afinal, o que é a amizade? Não se reduz, com certeza, a um sentimento ou a uma afinidade meramente emotiva. Um amigo é alguém especial, com o qual partilhamos os mesmos gostos, certo? Bem, nem sempre é assim. E parece que as mais belas amizades são as que perduram para além de qualquer divergência, mesmo quando esta provoca raiva, mágoa ou desilusão. Trata-se de um relacionamento atrelado, muitas vezes, ao perdão, relativizando os sentimentos e mantendo o vínculo da confiança. Confiança, penso ser a palavra fundamental. Com ela, vem uma série de atitudes imprescindíveis para se confiar em alguém: respeito, cumplicidade, transparência. Salvaguardadas essas condições, a amizade tem tudo para perdurar. É interessante notar, porém, como amizades aparentemente repletas de tais quesitos podem se destroçar sob o impacto de decepções afetivas, como quando perdemos um amigo de longa data, só porque mudamos de vida ou trocamos de trincheira na luta pela sobrevivência. A pertença a um determinado grupo, nesse caso, converte-se numa prisão, enquanto elemento intrínseco da suposta amizade, a qual resta destruída se nos afastamos do grupo. O que arremedava uma amizade era, de fato, um crasso corporativismo, excludente da diferença e da multiplicidade. Talvez por isso estejamos mais acostumados a identificar amigos entre os que nos rodeiam, pensando e agindo como nós. É o vizinho, o correligionário, o irmão de ministério, etc. Entretanto, a verdadeira amizade não coincide necessariamente com o companheirismo: vai além e, por isso mesmo, torna-se bem mais rara. Passei pela experiência de perder vários "amigos", para quem eu simplesmente deixei de existir. A mudança de vida significou quase um atestado de óbito, perante um grupo mais preocupado em resguardar sua coesão social do que em compreender os dissidentes, acolhendo-os quando necessário. A experiência serviu para eu perceber quem, de fato, era amigo, mas amigo de verdade. Os que me marginalizaram, em nome da honra da instituição, mostraram-me o caráter paradoxal das amizades imaturas, fruto de cínica conveniência: com elas, é possível ter as maiores alegrias, e também as piores tristezas. Já os amigos verdadeiros, surpreendentemente descobertos, em sua maioria, na hora da crise e da dissidência, aceitam a nossa situação com respeito, mesmo se não concordam com nossos pontos de vista. E não deixam de falar conosco, nem falam mal de nós. Sabem conviver saudavelmente com a diversidade, sem exclusões reveladoras de hipocrisia. Esses amigos são pouquíssimos, mas a satisfação que proporcionam compensa a perda dos outros que não quiseram manter o vínculo, por terem sido arrastados pelo sentimento de perda de um membro do grupo. Amizade, em definitivo, não se enclausura em agremiações, partidos, igrejas ou mesmo famílias. Ela é a atitude universalista por excelência, acolhendo sempre, sem restrições, com a confiança de quem não se deixa levar pela superficialidade das emoções e pelas vantagens do oportunismo.

sábado, 4 de setembro de 2010

Hawking e o ser

"Por haver uma lei como a gravidade, o universo pode e irá criar a si mesmo do nada. A criação espontânea é a razão pela qual algo existe ao invés de não existir nada, é a razão pela qual o universo existe, pela qual nós existimos." Essas palavras de um dos mais famosos e prestigiados cientistas de nosso tempo, o britânico Stephen Hawking, publicadas pelos jornais e sítios de notícias de todo o mundo nos últimos dias, instigam-nos à reflexão, pois dizem respeito à questão das questões: por que existe o ser e não o nada? Aliás, tal pergunta tem inspirado, de maneira direta ou indireta, os textos deste humilde blog. Hawking dispensa Deus da criação do universo, apelando para conceitos como a lei da gravidade e a criação espontânea, e dando a entender que o ser criou a si mesmo do nada. Sem querer refutar o grande astrofísico - mesmo porque não lemos ainda todo o seu novo livro, do qual foram tiradas suas mais recentes declarações polêmicas -, gostaríamos de relembrar um dado fundamental para a compreensão teórica e histórica da problemática da existência. Trata-se do fato de o conceito do nada só poder se delinear a partir da ideia judaico-cristã de criação. Sim, porque para os gregos, como Aristóteles, o hipótese de um mundo sem começo temporal não representava nenhuma contradição. A perenidade do mundo não é excluída sequer pela filosofia escolástica, enquanto a criação é definida em termos ontológicos, não cronológicos, como a absoluta dependência das coisas, até o mais profundo do seu ser, em relação a Deus. As criaturas não têm em si mesmas a razão do seu ser, pois, se a tivessem, existiriam de modo absoluto e necessário. A contingência aponta para Deus, ser por si subsistente e fundamento do ser, independentemente de ter havido ou não um início cronológico do universo. A ideia de criação temporal é de caráter bíblico-teológico e não se impõe do ponto de vista meramente racional. Porém, sua aparição no mundo das ideias significou o surgimento simultâneo da pergunta sobre o nada. Falar da criação do ser nos leva, naturalmente, a pensar no não ser. E só se pode postular que algo surge do nada supondo um início metafísico de tudo. Se Stephen Hawking e outros cientistas chegaram à conclusão de que o universo criou a si mesmo, terão de se declarar devedores do conceito de criação temporal naquilo em que ele influencia a indagação sobre o nada. Chegados a esse ponto, sua posição teórica não poderá escapar do embate contra uma das intuições ontológicas mais poderosas da humanidade: do nada, nada se faz. Aí, a pesquisa se desenvolverá num grau de abstração mais filosófico, acima do campo de discurso das ciências experimentais e exatas. Preparados ou não para isso, nossos cientistas se encontrarão com as profundas exigências do mistério do ser, fundadas na radical autoinsuficiência inteligível das coisas, que não podem existir sem uma razão de ser fora de si mesmas.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Sobre um possível sentido sem Deus

Para que viver? Qual o sentido desta labuta terrenal? Trata-se de uma pergunta importantíssima, cuja solução orienta as decisões que tomamos e molda as nossas atitudes. A resposta do ateísmo - não aquele implicante, movido mais por despeito do que por amor à verdade - configura uma alternativa de argumentação a ser levada em conta seriamente por qualquer pensador. Se Deus não existe, a vida adquire um sentido bastante diferenciado. Afinal, estamos acostumados a nos relacionar segundo valores carregados de heteronomia, por influência marcadamente religiosa. Fazer o bem, ser honesto, ser cortês tornam-se, em tal perspectiva, comportamentos resultantes de convicções forjadas por uma educação moral, ligada a conceitos nem sempre assumidos de maneira explícita, mas construídos com base na ideia de Deus, sábio, onipotente e remunerador. Em outras palavras, comportamo-nos bem por causa do Bem supremo, de quem esperamos a salvação e, às vezes, tememos o castigo. Sem Deus, nossa esperança seria outra e, a partir daí, teríamos motivações diversas para agir. Qual a ética do ateu? O que o impede de agir mal, prejudicando o próximo em benefício próprio? Imaginemos uma situação-limite, na qual dois homens se encontrassem sozinhos numa ilha deserta, sem leis e sem qualquer constrição exterior. Entregues somente à sua consciência, os dois seriam ateus. Imaginemos que um, para sobreviver, pensasse em matar o outro, por insuficiência do alimento disponível para os dois. Nessa hipótese, a morte do próximo resultaria, sem dúvida, vantajosa. Qual o obstáculo para que o potencial assassino efetive a sua vil intenção? Deus não existe para ele. Leis, naquele lugar, não há, nem polícia, nem juiz. Penso haver uma única saída para salvar o altruísmo e permitir a convivênvia civilizada, colocando-nos do ponto de vista ateu. O primeiro passo é não recorrer a situações-limite. A hipótese descrita acima seria excluída pelo simples fato de não ser verossímil, a menos que os dois ilhados fossem os últimos homens da terra. Mas, a sociedade existe, e o que determina a convivência é a busca da felicidade de cada um no confronto com o interesse de todos. Os seres humanos ganharam da evolução biológica a incrível capacidade de se organizar mediante um certo contrato social, para usar a famosa expressão de Hobbes, Locke e Rousseau. E não é um contrato simplesmente político, mas verdadeiramente existencial. O ser humano outra coisa não quer senão sobreviver e gozar de sua existência. Para tanto, há regras a se observar, com o fito de permitir que a coletividade usufrua dos benefícios da vida. Sem regras, chegaríamos à extinção da espécie. Assim, eu oriento minha liberdade, em certos casos, preferindo o bem do próximo ao meu próprio bem imediato, para que todos possamos sobreviver e tirar o máximo proveito do tempo que nos resta. É inevitável tal submissão às normas de conduta, caso queiramos preservar a própria integridade física e a permissão de ir e vir. As exigências da sociabilidade seriam a explicação última para os imperativos que nos impedem de matar, roubar, sequestrar, etc. E isso sem apelar para nenhuma divindade ou lei eterna. Tudo se organizaria conforme as circunstâncias culturais de cada época, sempre visando ao bem geral mediante a articulação entre os interesses particulares e os comuns. Essa explicação não exclui a possibilidade de, pelo menos na situação-limite apontada, mesmo que inverossímil, ocorrer um assassinato, justificável de alguma maneira. Também não se condena, na postura filosófica ateia, o recurso ao suicídio por parte de quem não se deixa levar pelo instinto de sobrevivência e se frustra com a vida. Entretanto, ao fundamentar no instinto gregário e na sociabilidade as relações entre os seres humanos, a ética ateia dá o seu contributo para a compreensão do sentido da existência e formula uma teoria da ação intelectualmente responsável, a qual deve sempre ser considerada com respeito na pesquisa filosófica.

sábado, 17 de julho de 2010

Oração

Senhor, tu és bom e justo, todo ternura e compaixão.
Sabes de nossas necessidades e nos amas infinitamente.
Vela, Pai de bondade, por teus filhos
e faze-nos viver na verdade e na justiça.
Acreditamos em ti porque o mundo ao nosso redor aponta
para um Criador,
sem o qual tudo cairia no absurdo.
E continuamos crendo,
mesmo sem entender por que não intervéns
na hora da morte da criança inocente
ou no momento em que o ímpio prospera.
Sabemos teres teu tempo e tuas razões,
bem acima do bem e do mal humanos,
pois és o Bem supremo, somente a quem pertence o juízo.
Ousamos pedir-te proteção, esperando em tua misericórdia,
e aguardamos teus benefícios,
não julgando tuas escolhas.
Só tu, Senhor, sumo Ser transcendente,
escolhes sem favoritismo,
optas sem selecionar
e amas sem qualquer mesquinhez,
numa incompreensível gratuidade,
com critérios que nunca poderemos explicar.
Abençoa, pois, as crianças, sinais de nossa fragilidade
e da necessidade de um além de nós mesmos.
Fortalece os promotores do bem, levanta os fracos,
cura os enfermos e ajuda-nos a ser melhores a cada dia,
doando-nos pelos irmãos, sobretudo os excluídos.
Torna-nos felizes no amor e dá-nos a graça de, um dia,
chegarmos todos à luz eterna, à salvação plena,
àquilo por que todo ser humano, no fundo do coração,
anseia sem cessar.
Tu, que és o Rei verdadeiro, o Senhor de nossas vidas,
a quem seja dada glória por todos os séculos.
Amém.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Uma pequena profissão de fé

Creio que o principal da mensagem de Jesus
é a opção pelos pobres.
O resto é acessório.
Seremos julgados não pelas
nossas crenças e ritos em si mesmos,
mas por nossa atitude
diante dos excluídos deste mundo.
É o que dá sentido à minha vida
e me faz seguir em frente,
sabendo da distância
entre o ideal e as minhas ações e omissões.
Acredito ser o rompimento de tal distância
o grande desafio para todo ser humano,
algo nunca alcançável plenamente nesta existência,
mas realizável, a cada dia, mediante
gestos de bondade e de luta pela transformação social.
Tenho fé em Deus-Amor, todo ternura e compaixão,
e me recuso a depositar minha inteira confiança
em qualquer estrutura de poder humano,
culturalmente condicionada,
mesmo que travestida de sacralidade.
Sou cristão, porém sem domicílio eclesiástico.
Aceito o congraçamento dos homens e mulheres no amor,
manifesto nas mobilizações do povo,
em busca de tempos mais justos e fraternos.
Creio estar no caminho certo
quando sustento minha fé no coração
e a expresso fazendo o bem e me unindo
às pessoas de boa vontade para ajudar os necessitados.
Minha salvação está na fidelidade a estas palavras,
e minha alegria reside em poder compreendê-las sempre melhor,
em comunhão com meus irmãos de todos os credos.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Transcendência e ciência

Não se pode negar o anelo do ser humano pelo além de si mesmo. Há em nós uma vontade de infinito, que perpassa todas as nossas ações. Os materialistas explicam tal característica recorrendo às articulações bioquímicas e às funcionalidades orgânicas desencadeadoras dos processos de consciência. A metafísica clássica, diante de um avanço científico de marcada repercussão antropológica, encontra nos requintados estudos do sistema nervoso um desafio único, um campo promissor de análise para a filosofia da mente. Trata-se do desdobramento moderno da secular questão do laço indissolúvel entre a espiritualidade humana e a transcendência do ser. Se não podemos encontrar, no homem, indícios racionalmente seguros de uma presença do além, mediante a postulação de uma alma imortal ou destino eterno, tampouco se mostrará confiável a crença no espírito como elemento autônomo na esfera do ser, ao lado da matéria e em inter-relação com ela. A espiritualidade do homem e a existência de Deus se encontram, para usar uma expressão heideggeriana, numa circularidade hermenêutica, onde uma não se pode explicar satisfatoriamente sem a outra, mesmo que os caminhos para chegar à defesa de cada uma não coincidam necessariamente. Aprofundando essa discussão eminentemente filosófica, diariamente aparecem explicações de biólogos, antropólogos e dos mais variados pesquisadores, que chegam a dar nó na cabeça de teólogos e cultores da religião. Quem faz só ciência da religião, de caráter descritivo e histórico, provavelmente não se preocupa com as implicações de uma pesquisa neurológica, orientada a encontrar pontos cerebrais responsáveis pelas mais altas expressões do espírito humano, como a arte, a própria ciência e a religião. Agora, quem faz teologia, envolvendo sua fé no assunto, terá pela frente um itinerário de indagações profundas, demandando respostas céleres e convincentes, bem no ritmo da dinâmica pós-moderna de argumentação. E nem sempre é possível fornecer tais respostas, pelo menos não no ritmo e na linguagem esperada. Porém, pressuposto o papel subsidiário da filosofia no esclarecimento das verdades reveladas, pode-se encarar com bastante honestidade intelectual a relação entre cérebro e metafísica. Se aparece um evolucionista, por exemplo, e explica a sobrevivência da espécie apelando à beleza e à fofura dos nossos recém-nascidos, que nos dariam uma tendência atávica e instintiva a não abandoná-los, a antropologia metafísica propugnará uma ética do cuidado, fundamentada na dignidade inalienável do ser humano e no valor incomensurável do seu ser, valor só justificável com recurso ao absoluto. Avaliando sem superficialidade, a resposta metafísica parece bem mais elaborada, porquanto dá conta de situações que a antropologia materialista não consegue esclarecer, como quando alguém sacrifica a vida pelo filho, pela pessoa amada ou mesmo por um desconhecido, indo além dos instintos e das conveniências mundanas. Disso só o trascendente pode dar razão.

domingo, 30 de maio de 2010

Nova missão

Há pouco mais de um ano do abandono da batina

Sou um cosmo esvoaçado,
perdido e reencontrado
nas tramas do ser
intuído no amor
ao Bem supremo.
Perdi sonhos, matei ideais,
mas assumi defletido
a contínua e imorredoura
força da paz
emanada da verdade.
Outrora chamado
a conduzir ao céu,
agora descubro
a vocação sempre presente
de indicar às almas
o caminho da rebelde razão.
Transição sofrida escureceu
meus horizontes.
Perdi o chão, o teto,
e o sentido se escondeu
de minha miopia.
Qual Fênix inquieta,
levanto-me marcado
pelas chibatadas do tempo
em um ego acostumado
a pressentir, em palavras alheias,
consolos e esperanças.
Confrontado com o mundo,
lançado e mergulhado
nos contrastes da existência,
reapareço à plateia ansiosa
por respostas,
sem apontar o céu,
mas carregando a suave
e pungente espada do verbo,
instrumento liberto,
com seus conceitos,
juízos e argumentos.
Para além de qualquer conquista,
apenas quererei revelar,
na humildade das circunstâncias,
a beleza e as exigências da vida,
em busca de uma felicidade partilhada
e dos sonhos perdidos.
Serei tanto mais eu
quanto mais me aproximar
dos ideais ressurretos
e purgados no calor do afeto profano,
sinal de um sagrado,
de uma transcendência,
que descansará solene em meu coração,
hoje e por todo o sempre.
Amém.

sábado, 15 de maio de 2010

Filosofia da fé

Que tal um pequeno comentário filosófico sobre a fé? Não se trata de teologia. Esta é o esclarecimento de uma verdade supostamente revelada, mediante a fé unida à razão. Para fazer teologia, pelo menos no sentido cristão, é preciso ter fé. A teologia é confessional, portanto. Já a filosofia não pode sê-lo, pois se vale somente da razão. Caso queira falar de Deus, da revelação ou dos anjos, terá de focalizá-los como objetos de estudo, como conceitos, procurando aferir sua inteligibilidade e coerência. O filósofo não precisa acreditar em Deus, mas pode discutir a sua existência e estudar os argumentos contrários e favoráveis a essa ideia. Assim, quando abordamos a fé do ponto de vista filosófico, queremos verificar a razoabilidade do fato de uma pessoa, livre e conscientemente, sustentar uma crença que chega a dar sentido à sua vida. Alguns falam de "salto da fé", um salto no escuro, algo como um risco assumido entre tantas outras alternativas de sentido. Se acredito num Deus trinitário, na encarnação do Filho de Deus, na graça e no Espírito Santo, não sou capaz de provar minha crença com os artifícios da lógica, mas a força da fé molda meu comportamento de tal maneira que dificilmente eu saberia definir-me sem os interditos e as consolações da religião. Na verdade, a fé é uma decisão, nem sempre madura, é uma opção de vida possível como muitas outras ao meu redor. Existe um pluralismo religioso irredutível, inegável, o qual me afronta e questiona minha fé. Quem tem a verdade? É necessário que alguém a tenha? É aceitável que todos a tenham, cada qual a seu modo? São perguntas ainda sem respostas decisivas. O importante, porém, é nos apercebermos de uma certa imunidade da fé diante desses questionamentos. Quem já vivenciou de perto o universo das práticas religiosas sabe o quanto uma "pessoa de fé" pode suportar na sua luta pela defesa de suas convicções mais profundas. Não é um arrazoado irrefutável ou a perfeição de uma análise dialética que leva uma beata de igreja a manter-se firme na fé, mesmo sob os ataques de um apologeta de outra seita ou diante das notícias da televisão acusando os pedófilos de sua comunidade. Para além de qualquer argumentação, a velhinha já se decidiu por uma posição existencial, e isso muito dificilmente mudará. Mecanismos de defesa entrarão em jogo e assinalarão a vitória da fé, símbolo eficaz de segurança, incólume diante das agruras sofridas em nome de Deus. Se a pessoa perder a fé, será por um duro golpe desferido contra esse núcleo de convicção e decisão forjado à revelia dos argumentos racionais. Há uma dimensão da estrutura antropológica, talvez com um correspondente na fisiologia neural, responsável pela nossa capacidade de crer, de optar por um Deus e por uma fé apta a orientar nossa caminhada neste mundo. É a dimensão mais íntima e menos domesticada do psiquismo humano. Ali, encontramo-nos a sós com nós mesmos, e a consciência nos desperta constantemente para os valores e as disposições assumidos na relação pessoal com a Divindade. A fé se torna uma luz, um farol a iluminar os passos de quem aprendeu a encontrar fora de si, seguindo a lei da heteronomia, o mapa da realização plena de seus ideais.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

O Deus em que creio

Aceito Deus como fundamento
do cosmos, da vida, do ser.
Ele existe, porque o mundo
e o homem no mundo
não se explicam por si sós.
Tudo em nós e ao nosso redor
reclama uma causa,
e a inteligibilidade do universo
aponta para o além.
Deus é, pois, para mim,
o primeiro motor sem o qual nada se moveria,
a causa primeira no condicionamento inteligível,
a razão de ser totalmente necessária,
a suprema perfeição transcendental,
o fim último de todas as coisas.
Isso o descubro pela razão,
reveladora da simplicidade,
da infinitude, da unicidade,
da imensidão e da imutabilidade
do amor.
Sim, Deus é amor em ato puro,
sem sombra de variação
e sem os condicionantes
de nossas preferências.
O Ser supremo tem de ser
o Amor supremo,
pois existe tendência, inclinação
em tudo o que é.
E se Deus é amor absoluto,
não pode ser seletivo ou favoritista
e não tem a mesquinhez que nós
frequentemente lhe atribuímos.
Ele pode agir no mundo,
mas o faz segundo critérios bem acima
dos nossos melhores valores.
Por isso, Deus é, mais que tudo, mistério insondável.
Como tal, não pode ser domesticado pelas
nossas devoções e organizações religiosas.
Transcendendo tudo em nós e fora de nós,
sua imanência nos sonda e nos revela
a nós mesmos como partícipes do mistério
e destinados à plenitude da vida.
Se Ele é Amor,
só amando o alcançaremos,
buscando o bem a cada instante.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Já é hora!

Já é hora de a vida prevalecer,
para além de interesses escusos
de quem domina e não acompanha
o ritmo suave do amor partilhado.
Já é hora de fazer valer o sonho
de um mundo feliz e justo,
sem castrações impostas
pelas ditaduras do ter e do poder.
Já é hora de acreditar em algo mais
que em divindades forjadas por frustrações daninhas,
simples simulacros dos desejos e anseios
de quem tem medo da morte.
Já é hora de abolir as regras
de uma tradição caduca que não fala mais
ao coração do homem e da mulher
lançados na labuta de cada dia.
Já é hora de ouvir as vozes
dos esperançosos e dos guerreiros da paz,
de preferência aos discursos oportunistas
de quem faz da história um parlamento dos ricos.
Já é hora do rugir das feras revolucionárias,
erguidas em marcha na busca do paraíso,
desautorizando toda opressão
e matando toda inércia.
Já é hora da poesia lavadeira da alma,
com suas expressões de alento e abandono,
a ensinar em versos e canções
o delicado e profundo sentido da vida.
Já é hora de sofrer pelo bem comum,
em sintonia com o fervor das massas,
despertadas da letargia inspirada
pelas fés de ontem e de hoje.
Já é hora de descobrir que a felicidade é uma trama,
tecida de alto a baixo pela satisfação de todos,
sem que ninguém seja autorizado a seguir pela estrada
pensando só em si mesmo.
Já é hora da flor regada pelo suor do amor,
sem limites ditados por interditos do além,
radiante nos campos iluminados pelo sol
da verdade, da razão e da sempre querida liberdade.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Causa no ser

Por que existe o ser e não o nada? Essa pergunta, à qual Heidegger procurou responder em sua "superação" da metafísica, continua a mais desafiadora da filosofia. O ser, entendido transcendentalmente, para além das particularizações das ciências experimentais e das generalizações do senso comum, abarca tudo o que existe ou pode existir. Trata-se do dado primordial em qualquer realidade. É o fato assombroso e surpreendentemente simples de que uma coisa existe, quando poderia não existir. Isso reclama, já no nível intuitivo e pré-filosófico, uma causa, uma razão de ser, não assimilável aos princípios das interações materiais do cosmo. Os princípios materiais explicam até certo ponto os entes, mas não podem dizer cabalmente por que eles estão arrancados do nada. Somente uma causa no ser, no condicionamento inteligível, e não no tempo ou nas interferências físico-químicas, pode se revelar como aquilo pelo que o universo e cada um de seus elementos são completos quanto à inteligibilidade. O ser, no final das contas, é efeito próprio de uma causa primeira, transcendente por essência, irredutível às séries causais responsáveis, de maneira próxima, pelo extraordinário espetáculo da natureza. A causa primeira é o motivo mais remoto, do ponto de vista ontológico, de todo o universo, dando a razão da existência dos seres a partir da dependência destes em relação a uma explicação última. Tal explicação não esgota o mistério do ser. Ao contrário, faz-nos encontrá-lo e estar em seus braços, como recém-nascidos incapazes de expressar a certeza de seu encontro com o mundo senão através de vagidos. Nossos discursos não passam de murmúrios desconexos diante da grandeza do ser e de sua explicação última. Entretanto, a assimetria entre a capacidade humana de compreensão e a infinitude do mistério não anula as tentativas de busca. Somos avisados de que não chagaremos à plenitude enquanto estivermos imersos na contingência da condição terrenal, mas nos extasiamos só de saber-nos autorizados a partir rumo ao desconhecido, colhendo aqui e ali impressões e soluções parciais, com a convicção de que se pode sempre ir além das respostas aparentemente conclusivas das ciências e das ideologias.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Amores e Amor

Quem me pode dizer,
Em meio às dores do mundo,
O quanto o homem se perde
Por se lançar tão profundo
Aos amores que o vento
Por desmazelo levou,
Enfeitados com os cantos
Que a primavera tocou?
Se são os choros e versos
Arrancados do peito
De quem não se contenta
Com as glórias do leito,
Por que se disfarça,
Com tanta aflição,
O sonho que arde
Em meu coração?
Quem ama se doa,
Não usa, não troca,
E seu centro vital
Já não se coloca
Na busca egoísta
Do próprio prazer,
Mas no bem que ao outro
Se há de fazer.
E para ser feliz,
É preciso ir além
Da moda ferina
Que a muitos detém
Nas amarras do medo
De viver com fervor
A suave alegria
De morrer por amor.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Deus é amor

A intencionalidade e o amor estão arraigados no ser. Trata-se de uma radicação ontológica da tendência, perceptível já pelo senso comum. E é como causa do ser que Deus é admitido pela inteligência. Ele é o fundamento do ser, a causa suprema de tudo o que existe. Assim, não há como desvincular Deus do amor, pois o ser supremo tem de ser o amor supremo. Não há ser sem amor, seja o amor natural dos entes inanimados e vegetativos, seja o amor emanado ou elícito dos animais, nos seus mais diversos níveis sensitivos e intelectivos, expressando o caráter onicompreensivo do princípio de finalidade (todo agente age em vista de um fim). A amor em Deus é absoluto, como o seu próprio ser. Aliás, como em Deus não há potencialidade, visto que ele é ato puro, seu ser e seu amor são uma só e mesma coisa. E toda causalidade em Deus acaba se identificando com a sua própria essência. Deus é amor em ato puro, sem mudança ou transição. A razão humana, desvendando as tramas do ser, consegue chegar a essa verdade basilar em nosso relacionamento com o transcendente. A religião opera sobre esse substrato acessível à razão e se vale de recursos característicos dos seres humanos em seu contato com o invisível, como o mito, a metáfora, o antropomorfismo. São recursos simbólicos, variáveis conforme a cultura dos povos. O discurso religioso tende ainda a completar o conteúdo fornecido pela abordagem exclusivamente filosófica. Aí entra o papel da fé e da teologia. O cristianismo, por exemplo, professa a verdade metafísica de que Deus é amor através do dogma da Santíssima Trindade: Deus é, desde sempre, intecâmbio de amor entre três pessoas distintas em uma só essêcia. É um dado apreendido somente pela fé, embora possa, na visão cristã, ser esclarecido com a mediação terminológico-analítica da filosofia. Tal exemplo nos mostra como a fé pode estar em continuidade com a razão. Esta aspira à certeza argumentativa, valendo-se da lógica e da evidência, preparando o caminho para a convicção de fé, que não é provada, mas apenas mais bem explicada pelos instrumentos de análise do pensamento metafísico.

Quem sou eu

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Sou cristão sem domicílio eclesiástico, sou herege de religião sem amor, sou ateu de deuses tiranos, sou poeta da alegria e da dor.