sábado, 15 de maio de 2010

Filosofia da fé

Que tal um pequeno comentário filosófico sobre a fé? Não se trata de teologia. Esta é o esclarecimento de uma verdade supostamente revelada, mediante a fé unida à razão. Para fazer teologia, pelo menos no sentido cristão, é preciso ter fé. A teologia é confessional, portanto. Já a filosofia não pode sê-lo, pois se vale somente da razão. Caso queira falar de Deus, da revelação ou dos anjos, terá de focalizá-los como objetos de estudo, como conceitos, procurando aferir sua inteligibilidade e coerência. O filósofo não precisa acreditar em Deus, mas pode discutir a sua existência e estudar os argumentos contrários e favoráveis a essa ideia. Assim, quando abordamos a fé do ponto de vista filosófico, queremos verificar a razoabilidade do fato de uma pessoa, livre e conscientemente, sustentar uma crença que chega a dar sentido à sua vida. Alguns falam de "salto da fé", um salto no escuro, algo como um risco assumido entre tantas outras alternativas de sentido. Se acredito num Deus trinitário, na encarnação do Filho de Deus, na graça e no Espírito Santo, não sou capaz de provar minha crença com os artifícios da lógica, mas a força da fé molda meu comportamento de tal maneira que dificilmente eu saberia definir-me sem os interditos e as consolações da religião. Na verdade, a fé é uma decisão, nem sempre madura, é uma opção de vida possível como muitas outras ao meu redor. Existe um pluralismo religioso irredutível, inegável, o qual me afronta e questiona minha fé. Quem tem a verdade? É necessário que alguém a tenha? É aceitável que todos a tenham, cada qual a seu modo? São perguntas ainda sem respostas decisivas. O importante, porém, é nos apercebermos de uma certa imunidade da fé diante desses questionamentos. Quem já vivenciou de perto o universo das práticas religiosas sabe o quanto uma "pessoa de fé" pode suportar na sua luta pela defesa de suas convicções mais profundas. Não é um arrazoado irrefutável ou a perfeição de uma análise dialética que leva uma beata de igreja a manter-se firme na fé, mesmo sob os ataques de um apologeta de outra seita ou diante das notícias da televisão acusando os pedófilos de sua comunidade. Para além de qualquer argumentação, a velhinha já se decidiu por uma posição existencial, e isso muito dificilmente mudará. Mecanismos de defesa entrarão em jogo e assinalarão a vitória da fé, símbolo eficaz de segurança, incólume diante das agruras sofridas em nome de Deus. Se a pessoa perder a fé, será por um duro golpe desferido contra esse núcleo de convicção e decisão forjado à revelia dos argumentos racionais. Há uma dimensão da estrutura antropológica, talvez com um correspondente na fisiologia neural, responsável pela nossa capacidade de crer, de optar por um Deus e por uma fé apta a orientar nossa caminhada neste mundo. É a dimensão mais íntima e menos domesticada do psiquismo humano. Ali, encontramo-nos a sós com nós mesmos, e a consciência nos desperta constantemente para os valores e as disposições assumidos na relação pessoal com a Divindade. A fé se torna uma luz, um farol a iluminar os passos de quem aprendeu a encontrar fora de si, seguindo a lei da heteronomia, o mapa da realização plena de seus ideais.

Quem sou eu

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Sou cristão sem domicílio eclesiástico, sou herege de religião sem amor, sou ateu de deuses tiranos, sou poeta da alegria e da dor.