Sobre Deus, verdade, amor, fé, vida e outras coisas nem sempre definíveis.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Sobre a amizade
Sei que Aristóteles e tantos outros já escreveram sobre amizade. Não há nada de muito original em lembrar que ela é "uma alma em dois corpos" ou coisa semelhante. Porém, gostaria de refletir um pouco sobre o caráter dramático e existencialmente conflitivo dessa relação tão essencial na nossa vida. A começar pela sua definição ou tentativa de definição. Afinal, o que é a amizade? Não se reduz, com certeza, a um sentimento ou a uma afinidade meramente emotiva. Um amigo é alguém especial, com o qual partilhamos os mesmos gostos, certo? Bem, nem sempre é assim. E parece que as mais belas amizades são as que perduram para além de qualquer divergência, mesmo quando esta provoca raiva, mágoa ou desilusão. Trata-se de um relacionamento atrelado, muitas vezes, ao perdão, relativizando os sentimentos e mantendo o vínculo da confiança. Confiança, penso ser a palavra fundamental. Com ela, vem uma série de atitudes imprescindíveis para se confiar em alguém: respeito, cumplicidade, transparência. Salvaguardadas essas condições, a amizade tem tudo para perdurar. É interessante notar, porém, como amizades aparentemente repletas de tais quesitos podem se destroçar sob o impacto de decepções afetivas, como quando perdemos um amigo de longa data, só porque mudamos de vida ou trocamos de trincheira na luta pela sobrevivência. A pertença a um determinado grupo, nesse caso, converte-se numa prisão, enquanto elemento intrínseco da suposta amizade, a qual resta destruída se nos afastamos do grupo. O que arremedava uma amizade era, de fato, um crasso corporativismo, excludente da diferença e da multiplicidade. Talvez por isso estejamos mais acostumados a identificar amigos entre os que nos rodeiam, pensando e agindo como nós. É o vizinho, o correligionário, o irmão de ministério, etc. Entretanto, a verdadeira amizade não coincide necessariamente com o companheirismo: vai além e, por isso mesmo, torna-se bem mais rara. Passei pela experiência de perder vários "amigos", para quem eu simplesmente deixei de existir. A mudança de vida significou quase um atestado de óbito, perante um grupo mais preocupado em resguardar sua coesão social do que em compreender os dissidentes, acolhendo-os quando necessário. A experiência serviu para eu perceber quem, de fato, era amigo, mas amigo de verdade. Os que me marginalizaram, em nome da honra da instituição, mostraram-me o caráter paradoxal das amizades imaturas, fruto de cínica conveniência: com elas, é possível ter as maiores alegrias, e também as piores tristezas. Já os amigos verdadeiros, surpreendentemente descobertos, em sua maioria, na hora da crise e da dissidência, aceitam a nossa situação com respeito, mesmo se não concordam com nossos pontos de vista. E não deixam de falar conosco, nem falam mal de nós. Sabem conviver saudavelmente com a diversidade, sem exclusões reveladoras de hipocrisia. Esses amigos são pouquíssimos, mas a satisfação que proporcionam compensa a perda dos outros que não quiseram manter o vínculo, por terem sido arrastados pelo sentimento de perda de um membro do grupo. Amizade, em definitivo, não se enclausura em agremiações, partidos, igrejas ou mesmo famílias. Ela é a atitude universalista por excelência, acolhendo sempre, sem restrições, com a confiança de quem não se deixa levar pela superficialidade das emoções e pelas vantagens do oportunismo.
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Quem sou eu
- Tarcísio Bráulio Gonçalves
- Sou cristão sem domicílio eclesiástico, sou herege de religião sem amor, sou ateu de deuses tiranos, sou poeta da alegria e da dor.