Saber viver é uma arte exigente. É algo simples, mas também profundo. Nada mais simples do que apenas curtir o tempo reservado a nós, sem preocupações e anseios vãos. O “carpe diem”, no entanto, não escapa das dificuldades da vida, presa entre a positividade de uma existência e a negatividade de sua constante dissolução. Daí, a exigência de um toque de sabedoria, que nos concede a profundidade para o alcance da serenidade e da confiança.
Ser sábio é convencer-se todo dia do imperativo ético basilar: devemos fazer o bem e evitar o mal. Tal convencimento não é ordinariamente mediado pela especulação filosófica, embora esta tente traduzi-lo das mais variadas formas. No senso comum, trata-se de uma reflexão quase intuitiva, apta para revelar o quanto o bem nos promove e o mal nos destroça. Fazer o bem é a concretização da natural tendência humana à abertura e ao encontro. Não somos feitos para nós mesmos. Relacionar-se é inerente à condição do homem e da mulher, desde a concepção. Ao cuidar do outro, meu ser também cuida de si, pois se realiza como gente, ontológicamente capaz de sobrepor aos instintos egoístas a inteligência e o incondicional altruísmo. Cada um de nós possui, dessa maneira, a vocação metafísica, fundada no ser, de ir além, de ser mais, de promover e de ser promovido. Em outras palavras, temos o direito radical de ser felizes, associado à missão de espalhar felicidade.
O bem é aquilo que contribui para a perfeição da criatura. A vida humana tem, pois, um caráter radicalmente positivo. Somos chamados a agir, a não ficar parados, mesmo nas ocasiões de “ócio criativo”. Isso nos realiza. Porém, a ordem de evitar o mal revela a ausência de ser, a privação daquilo que deveria existir mas não existe. O mal, como falta do bem devido, torna a vida um autêntico drama, ao enchê-la de negatividade. Ao mesmo tempo em que buscamos o bem, defrontamo-nos com o mal, manifesto sobretudo nos eventos trágicos que não sabemos explicar. Que bem maior se pode esperar da morte da criança inocente? Deus permite isso? Mas tal permissão, para um Ser que é causa total e absoluta do universo, não equivaleria, como argumentou Kant, a um querer positivo? Bem, as respostas definitivas se farão esperar enquanto estivermos neste mundo. Resta-nos viver, com o otimismo de quem se convenceu de que o melhor caminho é fazer bem e com o realismo de quem luta para evitar o mal.
