domingo, 19 de dezembro de 2010

O papel da religião

Mais e mais me convenço de que as religiões não têm outro papel senão o de institucionalizar o relacionamento com Deus, com base no caráter intrinsecamente social das interações humanas. Afinal, o homem é um animal social ou político até em sua relação com o Transcendente. Isso, em princípio, não é ruim nem constitui uma corrupção da natureza; porém, priorizado o aspecto institucional, em detrimento da espontaneidade do Espírito, a religião pode se tornar um empecilho à nossa autêntica realização. Na verdade, as religiões nada mais são do que expressões culturalmente variadas de uma mesma intuição do Absoluto. À luz da atual teologia pluralista, não se pode dizer que uma única forma religiosa seja a verdadeira. Não se encaixa no moderno paradigma civilizatório a concepção do cristianismo, por exemplo, como único caminho para se chegar à salvação. O recurso aos tradicionais "preambula fidei", como os milagres, supostamente exclusivos da Igreja, não convence mais. Não há nada de razoável em se dizer que apenas uma interpretação seja válida diante do pluralismo de ideias e tendências, reveladoras não de um relativismo incapaz de fornecer segurança na análise racional, mas da relatividade das expressões filosóficas e religiosas na interminável busca da verdade, da qual ninguém é dono. Todas as religiões são verdadeiras, embora cada uma tenha suas características e grau próprio de maturidade no fornecimento de subsídios para a felicidade do ser humano. Minha adesão ao cristianismo católico ou ao evangélico, ou ainda a outras linhas espirituais, não combina, num universo religioso globalizado, com o exclusivismo teológico de um Karl Barth, nem com o insuficiente inclusivismo de Rahner, mas se abre à perpectiva libertadora que enxerga no diferente não um adversário ou potencial condenado, e sim um irmão que caminha, numa estrada diversa, em direção ao mesmo destino de todos, o Deus Pai e Mãe que não faz acepção de pessoas. A pertença a uma religião é muito mais uma questão cultural, fruto das circunstâncias existenciais de alguém, do que resultado de uma eleição ou privilégio determinado do alto. Tal pertença, no entanto, não é um dado desprezível. Na verdade, grande parte de nós se encontra com Deus no seio de uma família religiosa, sob a tutela de regras, rituais e estruturas de poder necessárias para a organização social da fé. Trata-se, porém, de um instrumental a ser tomado como meio, não como fim em si mesmo. O fim supremo é Deus, o único realmente absoluto. A Ele chegamos de maneiras variadas, conforme nossa formação ao longo da vida. Deve-se amar uma religião não por ser supostamente a detentora privilegiada de todos os meios de salvação, mas por determinar, em certo sentido, nosso lugar no mundo e representar uma mediação importante no relacionamento com Deus. Asseveremos, porém, que a própria relatividade das formas religiosas impede-nos de considerar absolutamente indispensável ter uma religião para se aprimorar na espiritualidade. Há, pelo menos, três caminhos possíveis de realização humana, a depender das escolhas de cada um: a) nunca pertencer a nenhuma religião, mas desenvolver-se pelo caminho espiritual de uma ética laica, fundamentada em valores universais, aceitando ou não um Ser absoluto; b)aderir a uma religião e encontrar nela, parcial ou totalmente, o ambiente ideal para um desenvolvimento pessoal e comunitário integrador; c) aderir a uma religião e depois abandoná-la, preferindo alimentar a espiritualidade independentemente de estruturas religiosas. Não há condições de se afirmar que um desses caminhos seja mais válido que os outros. Em princípio, os três são verdadeiros, em suas múltiplas manifestações. Particularmente, reconheço no terceiro uma possibilidade evolutiva em relação ao segundo, sem fazer qualquer juízo de valor. Ser um teísta liberal ou pluralista tem sido, de fato, a minha opção de vida, o que não me faz melhor que ninguém. Meu teísmo vê na religião católica, da qual eu saí, um estágio de evolução espiritual, no qual muitos encontram o sentido de suas vidas. Quanto a mim, persigo esse sentido fora de qualquer parâmetro tipicamente institucional, à espera de, um dia, alcançar o termo dos anseios mais profundos de todo homem.

Quem sou eu

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Sou cristão sem domicílio eclesiástico, sou herege de religião sem amor, sou ateu de deuses tiranos, sou poeta da alegria e da dor.