Sobre Deus, verdade, amor, fé, vida e outras coisas nem sempre definíveis.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Transcendência e ciência
Não se pode negar o anelo do ser humano pelo além de si mesmo. Há em nós uma vontade de infinito, que perpassa todas as nossas ações. Os materialistas explicam tal característica recorrendo às articulações bioquímicas e às funcionalidades orgânicas desencadeadoras dos processos de consciência. A metafísica clássica, diante de um avanço científico de marcada repercussão antropológica, encontra nos requintados estudos do sistema nervoso um desafio único, um campo promissor de análise para a filosofia da mente. Trata-se do desdobramento moderno da secular questão do laço indissolúvel entre a espiritualidade humana e a transcendência do ser. Se não podemos encontrar, no homem, indícios racionalmente seguros de uma presença do além, mediante a postulação de uma alma imortal ou destino eterno, tampouco se mostrará confiável a crença no espírito como elemento autônomo na esfera do ser, ao lado da matéria e em inter-relação com ela. A espiritualidade do homem e a existência de Deus se encontram, para usar uma expressão heideggeriana, numa circularidade hermenêutica, onde uma não se pode explicar satisfatoriamente sem a outra, mesmo que os caminhos para chegar à defesa de cada uma não coincidam necessariamente. Aprofundando essa discussão eminentemente filosófica, diariamente aparecem explicações de biólogos, antropólogos e dos mais variados pesquisadores, que chegam a dar nó na cabeça de teólogos e cultores da religião. Quem faz só ciência da religião, de caráter descritivo e histórico, provavelmente não se preocupa com as implicações de uma pesquisa neurológica, orientada a encontrar pontos cerebrais responsáveis pelas mais altas expressões do espírito humano, como a arte, a própria ciência e a religião. Agora, quem faz teologia, envolvendo sua fé no assunto, terá pela frente um itinerário de indagações profundas, demandando respostas céleres e convincentes, bem no ritmo da dinâmica pós-moderna de argumentação. E nem sempre é possível fornecer tais respostas, pelo menos não no ritmo e na linguagem esperada. Porém, pressuposto o papel subsidiário da filosofia no esclarecimento das verdades reveladas, pode-se encarar com bastante honestidade intelectual a relação entre cérebro e metafísica. Se aparece um evolucionista, por exemplo, e explica a sobrevivência da espécie apelando à beleza e à fofura dos nossos recém-nascidos, que nos dariam uma tendência atávica e instintiva a não abandoná-los, a antropologia metafísica propugnará uma ética do cuidado, fundamentada na dignidade inalienável do ser humano e no valor incomensurável do seu ser, valor só justificável com recurso ao absoluto. Avaliando sem superficialidade, a resposta metafísica parece bem mais elaborada, porquanto dá conta de situações que a antropologia materialista não consegue esclarecer, como quando alguém sacrifica a vida pelo filho, pela pessoa amada ou mesmo por um desconhecido, indo além dos instintos e das conveniências mundanas. Disso só o trascendente pode dar razão.
Quem sou eu
- Tarcísio Bráulio Gonçalves
- Sou cristão sem domicílio eclesiástico, sou herege de religião sem amor, sou ateu de deuses tiranos, sou poeta da alegria e da dor.