segunda-feira, 15 de março de 2010

Causa no ser

Por que existe o ser e não o nada? Essa pergunta, à qual Heidegger procurou responder em sua "superação" da metafísica, continua a mais desafiadora da filosofia. O ser, entendido transcendentalmente, para além das particularizações das ciências experimentais e das generalizações do senso comum, abarca tudo o que existe ou pode existir. Trata-se do dado primordial em qualquer realidade. É o fato assombroso e surpreendentemente simples de que uma coisa existe, quando poderia não existir. Isso reclama, já no nível intuitivo e pré-filosófico, uma causa, uma razão de ser, não assimilável aos princípios das interações materiais do cosmo. Os princípios materiais explicam até certo ponto os entes, mas não podem dizer cabalmente por que eles estão arrancados do nada. Somente uma causa no ser, no condicionamento inteligível, e não no tempo ou nas interferências físico-químicas, pode se revelar como aquilo pelo que o universo e cada um de seus elementos são completos quanto à inteligibilidade. O ser, no final das contas, é efeito próprio de uma causa primeira, transcendente por essência, irredutível às séries causais responsáveis, de maneira próxima, pelo extraordinário espetáculo da natureza. A causa primeira é o motivo mais remoto, do ponto de vista ontológico, de todo o universo, dando a razão da existência dos seres a partir da dependência destes em relação a uma explicação última. Tal explicação não esgota o mistério do ser. Ao contrário, faz-nos encontrá-lo e estar em seus braços, como recém-nascidos incapazes de expressar a certeza de seu encontro com o mundo senão através de vagidos. Nossos discursos não passam de murmúrios desconexos diante da grandeza do ser e de sua explicação última. Entretanto, a assimetria entre a capacidade humana de compreensão e a infinitude do mistério não anula as tentativas de busca. Somos avisados de que não chagaremos à plenitude enquanto estivermos imersos na contingência da condição terrenal, mas nos extasiamos só de saber-nos autorizados a partir rumo ao desconhecido, colhendo aqui e ali impressões e soluções parciais, com a convicção de que se pode sempre ir além das respostas aparentemente conclusivas das ciências e das ideologias.

Quem sou eu

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Sou cristão sem domicílio eclesiástico, sou herege de religião sem amor, sou ateu de deuses tiranos, sou poeta da alegria e da dor.