terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Filosofia do cotidiano

"Nada de novo debaixo do sol." Essa conhecida constatação do livro bíblico do Eclesiastes não traduz somente um sadio sentimento realista diante das novidades e modas de ontem e hoje. O ser humano, em sua sede de infinito, pouco se satisfaz com o que tem em suas mãos: busca sempre um algo mais, sinal evidente de uma aspiração interminável. Porém, no caminho rumo à felicidade, existe o muro renitente das limitações; e, na impossibilidade de realizar tudo que queremos, preferimos manter-nos seguros em opções prontas, acabadas, organizando o dia a dia com critérios de praticidade e eficiência, interessados basicamente na luta pela sobrevivência e conservação da prole. Os grandes ideais são sorvidos pela corrente do cotidiano nivelador, que iguala tudo e tende a cancelar o sentido do extraordinário, ao reduzir conquistas e sonhos a inúteis devaneios. Sem querer valorar, do ponto de vista moral, a intenção do autor do Eclesiastes, reconhecidamente um grande filósofo, podemos dizer que sua constatação, não isenta de pessimismo, é um típico exemplo do jeito profundamente humano de lidar com as surpresas nossas de cada dia. Num oportunista mecanismo de defesa, aprendemos a domesticar o novo e a torná-lo convencional, não dando espaço para a irrupção independente do inusitado. Há uma estrutura categorial destinada a alocar mentalmente os eventos e a selecioná-los conforme nossos interesses vitais, ligados aos instintos básicos de alimentação, sociabilidade e propagação da espécie. Permitimo-nos certos momentos de alegria e de espanto, mas logo nos enclausuramos na mesmice imperante de nosso universo de discurso. No limite, podemos exclamar com Schopenhauer: "A vida é dor, a história é cego acaso, e o progresso é ilusão"! Assim, resta-nos viver instante por instante, sem elevadas expectativas, apenas com o inevitável e inconfessado desejo de ser felizes. Num misto de frustração e conformismo existencial, sentimo-nos alheios aos avanços qualitativos do tempo, com o coração voltado para o alto, sem poder tocá-lo, e os pés fincados no chão da dura realidade de raras esperanças e muitos esforços. Uma alternativa a quem não concorde com tal atitude reside na revolta contra o peso da monotonia, mediante as válvulas de escape tão conhecidas do mundo moderno, capazes tanto de distender o espírito como de desfigurar a personalidade. Isso, no entanto, só se faz ao preço singular de romper com o estabalecido, em luta contra os padrões da sociedade e os bloqueios do próprio ego. Um tal heroísmo não é exigido de todos, mas se faz sempre mais necessário em nossos dias.

Quem sou eu

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Sou cristão sem domicílio eclesiástico, sou herege de religião sem amor, sou ateu de deuses tiranos, sou poeta da alegria e da dor.