Sobre Deus, verdade, amor, fé, vida e outras coisas nem sempre definíveis.
terça-feira, 8 de março de 2011
O homem integral e a empresa contemporânea
Há quem diga que o maior mistério para o homem é o próprio homem. De fato, nossa existência, em grande parte, delineia-se sob o signo do desconhecido, sem podermos passar do silêncio em muitas questões. Uma certeza, porém, vem tomando conta de vários campos do saber, penetrando até mesmo em setores prevalentemente orientados para os resultados e a eficiência material: o ser humano é um todo psicossomático, e somente considerando todas as suas dimensões, poderemos ter uma ideia aproximada de suas potencialidades mais relevantes. A dimensão transcendente já não é reservada para os discursos religiosos. Muitas filosofias ajudam-nos a interpretar os relacionamentos humanos a partir de uma ótica holística, levando em conta o contato do homem consigo mesmo, com os seus semelhantes e com o cosmo. Pela palavra cosmo, costumamos entender o universo captável com os recursos da ciência experimental. No entanto, ao dizermos "mundo", implicitamente colocamos a questão do "além-mundo", pois inevitavelmente assumimos uma perspectiva que nos situa perante o todo uno da realidade como tal. E isso é já uma metafísica em gestação, atemática, embasando um conhecimento natural e pré-filosófico do chamado plano espiritual. Na verdade, os que negam qualquer aspecto transcendente na vida humana não podem fazê-lo sem antes colocar a própria questão do transcendente. A abertura do ser humano ao além de si mesmo aparece como condição da dúvida e da negação. É precisamente essa independência ontológica e operacional em relação aos limites corpóreos que distingue nossa espécie. Assim, uma reflexão sensata acerca do humano em sua integralidade, independentemente do sentido que se dê ao termo "espiritual", é o fundamento para uma abordagem produtiva e edificante do bem comum pretendido nas relações interpessoais. Trata-se de um visão presente, como dissemos, em vários setores da atividade humana. No mundo corporativo, por exemplo, há os que falam da prioridade do humanismo, inserindo nas tramas empresariais o fio condutor do sentido último da vida, critério indispensável para uma gestão de pessoas sintonizada com as novas exigências da pós-modernidade. Não dá mais para se conceber um funcionário como uma mera engrenagem no sistema: é um ser humano, com necessidades materiais e afetivas, e uma abertura inevitável ao transcendente, nem que seja para negá-lo. Técnicas administrativas e táticas de liderança pouco conseguirão sem atender às exigências sugeridas pela consideração atenta desses fatores. A empresa contemporânea não precisa renunciar às expectativas de crescimento financeiro e nem fugir da competitividade inerente ao modo de produção capitalista. O enfoque dado ao capital humano, no entanto, deve afastar-se urgentemente da premissa neoliberal, que coloca o lucro acima da pessoa e o trabalho objetivo acima do trabalhador. Enquanto o ser humano integral não for a verdadeira medida das coisas nas relações trabalhistas, nenhuma empresa conseguirá cumprir, com autenticidade, sua responsabilidade cidadã. O contributo dos gestores que, por sua vez, conseguirem integrar, em seus parâmetros de análise e de conduta, os resultados de pesquisas sérias sobre as diversas dimensões do mistério humano será inestimável para a construção de uma sociedade justa e com oportunidade para todos.
Quem sou eu
- Tarcísio Bráulio Gonçalves
- Sou cristão sem domicílio eclesiástico, sou herege de religião sem amor, sou ateu de deuses tiranos, sou poeta da alegria e da dor.