Sobre Deus, verdade, amor, fé, vida e outras coisas nem sempre definíveis.
terça-feira, 17 de maio de 2011
Entre a identidade e o diálogo
Num mundo globalizado, com várias redes sociais e culturais, a capacidade de diálogo é determinante para a promoção de uma boa convivência. Porém, nem sempre se consegue conciliar a necessária abertura ao outro com a preservação da própria identidade. Os conflitos religiosos talvez sejam a melhor amostra disso, embora pontos de vista divergentes gerem conflitos nos mais variados setores. É preocupante como, apesar de avanços tecnológicos promotores de uma integração humana espetacular, ainda haja tantos focos de resistência reacionária, concentrados em minar a força e a beleza da alteridade. O reconhecimento da verdade alheia é tido por inimigo mortal de uma experiência pessoal e comunitária historicamente condicionada. No universo cristão, por exemplo, o obsoleto exclusivimo do período anterior ao Vaticano II sobrevive na mentalidade de muitos fiéis, os quais têm na demonização do diferente uma ocupação quase obrigatória, confundida até com uma missão recebida do alto. Falam de respeito e tolerância mais por oportunismo do que por convicção, porquanto não perdem a menor oportunidade para enfatizar o caráter supostamente absoluto de sua doutrina. Um sadio senso da relatividade das formas religiosas, que não deve ser confundido sem mais com o relativismo, é ausente da teoria e da prática de tais pessoas, levando a uma confusão acrítica e preconceituosa entre unidade e uniformidade. A saída do impasse parece estar justamente no enfrentamento da tensão dialética da identidade com o diálogo, em busca de uma síntese construtiva, que leve à verdadeira paz entre as religiões, sem a qual não haverá paz no mundo, como diria Hans Küng. Enfrentar essa tensão significa reconhecer, em primeiro lugar, o caráter irredutivelmente misterioso de Deus. Dele sabemos bem menos do que aquilo que não sabemos, ensina-nos Santo Tomás de Aquino. Querer limitar o único Absoluto a uma determinada forma de concebê-lo é cair numa contradição insuperável. A teologia cristã começou a perceber isso e forjou uma tentativa conciliadora com o chamado inclusivismo, tanto do lado católico (Danielou, Von Balthasar, Rahner) como do protestante (Tillich). Entretanto, o inclusivismo não passa de uma forma atenuada de exclusivismo, pois ainda considera o cristianismo a única religião verdadeira. As outras expressões religiosas teriam o seu valor, que, para Karl Rahner, seria inclusive sobrenatural; porém, a graça atuante nelas seria "graça própria da Igreja de Cristo", tendente à "unidade católica". Ou seja, Cristo continua sendo o causador constitutivo e absoluto da salvação, mesmo fora dos limites visíveis da Igreja. Um salto qualitativo tem sido dado por outros teólogos, para os quais nem o exclusivismo nem o inclusivismo servem para o atual paradigma civilizacional. Para eles, o pluralismo religioso é um dado insuperável e positivo. Essa posição, defendida com diferentes matizes por John Hick, Paul Knitter, Jacques Dupuis, Claude Geffrè, Roger Haight, dentre outros, propugna um cristianismo aberto, centrado no Reino de Deus e afastado de um conceito de Deus seletivo e favoritista, segundo o qual seria aceitável a escolha de um único povo e uma única igreja como depositários da verdade. A teologia do pluralismo religioso assume radicalmente a noção do amor gratuito de Deus, amor presente em todas as religiões, sem privilégios de qualquer natureza. Na visão de Roger Haight, não se transgride o princípio de identidade quando entendemos Cristo como normativo para a salvação dos cristãos, e não para a salvação dos não cristãos. Trata-se da profissão de fé na presença misteriosa do Espírito, que sopra onde quer, sem que precisemos apelar para o "sacramento da ignorância" como justificativa da salvação de quem não faz parte de nossa religião. Obviamente, a postura pluralista causa incômodos nos círculos eclesiásticos mais conservadores, dando azo a condenações arbitrárias e teologicamente infundadas, como no caso do próprio Roger Haight. Não obstante, assim como a Igreja Romana passou, excetuando-se alguns círculos fanáticos, do exclusivismo para o inclusivismo no Concílio Vaticano II, espera-se que o passo no sentido do pluralismo, já dado por vários pensadores, seja assumido por todos os seguidores de Cristo. Quem condenou Galileu e Teilhard de Chardin, retratando-se depois, pode desfazer, um dia, os mal-entendidos gerados por uma visão demasiado estreita de Deus e do seu amor pelo ser humano.
Quem sou eu
- Tarcísio Bráulio Gonçalves
- Sou cristão sem domicílio eclesiástico, sou herege de religião sem amor, sou ateu de deuses tiranos, sou poeta da alegria e da dor.