I
Os cânticos do juízo final,
Numa louca sinfonia da cruz,
Travestida do poder do bem,
Que do mundo para o céu conduz.
Julgamento das nações pagãs,
Infratoras do amor humano,
Resta-nos a esperança de vir
E revelar de Deus o plano.
O Absoluto só quer o bem
Dos mortais desejosos de luz
E dos sonhos enamorados,
Contra vozes entorpecidas
Que aspiram à destruição
Dos abraços apaixonados.
II
Enfraquecidas imagens
De um passado tão distante,
Como ideias a desvanecer
Na solidão de um instante.
São lembranças das origens
E da primeva palestra,
Pronunciada pelo Verbo
Ao universo ainda em festa.
Tais diáfanas seguranças
Alimentam minh'alma
Se vividas em profusão.
Encarnam-se na fantasia,
Acolhem a deusa amada
E a conservam no coração.
III
Preso a meu amor insano,
Perseguido pelo mal
Dos conceitos ferinos
De roupagem divinal.
Com o beijo da amada
Me sacio plenamente,
Mas o mundo não espera
E apressa a dor ingente.
E somos separados,
Quais bandidos imorais,
Sem qualquer explicação.
Nos cárceres do saber,
Excluídos nossos sonhos,
Afastada toda ilusão.
IV
Mas vem, enfim, forte e radiante,
De Deus o juízo sempiterno,
Forjado não em claustros hediondos,
E sim no sol do amor eterno.
Junta-nos em fogo o tribunal
Do conselheiro onipotente
E revela a todos de uma vez
A verdade por fim presente:
Somos filhos do ardor cósmico
Do Transcendente enamorado,
E nossa culpa é nossa glória!
Amemo-nos, pois, loucamente,
Louvemos o Deus manifesto
Pelas paixões de toda a história.
