Sobre Deus, verdade, amor, fé, vida e outras coisas nem sempre definíveis.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Beleza
O que define uma coisa como bela? Seria algo presente apenas nos olhos de quem vê? Na verdade, embora os padrões estéticos sejam construtos sociais, sujeitos a modificações culturais e históricas, reside no belo um caráter absoluto, derivado da universalidade do ser. A beleza também é conversível no ser. Nem tudo é bonito aos nossos olhos, é claro. Porém, essa feiura remete à imperfeição do real, constituído de privações parasitárias do ser, sem que este seja anulado em sua unidade, verdade e bondade. A feiura significa uma certa falta de proporção ou harmonia entre as partes de um todo, a qual incomoda a nossa percepção. A beleza, pelo contrário, agrada à vista, conforme nos ensina a definição clássica do belo: “id quod visum placet” – aquilo que, visto, agrada. A abrangência universal do ser confere à beleza uma objetividade, apesar do tom subjetivo e relativo de grande parte de nossas considerações estéticas. Afinal, quem ama o feio, bonito lhe parece. Tal subjetividade, porém, tem um preciso limite na transcendentalidade do belo. Sim, a beleza também é um transcendental, enquanto consiste numa perfeição inerente às coisas, que transcende essas mesmas coisas, revelando o parentesco que elas têm com o infinito. As coisas belas provocam uma alegria espontânea no espírito, pois este, ao encontrá-las, vale-se do expediente humano normal de acesso ao invisível. Por meio da beleza visível, nós nos relacionamos com a Beleza suprema. A partir dos seres criados, podemos aceder ao Ser supremo, por um processo abstrativo, eminentemente metafísico. Não é esse o caminho de acesso facultado pela experiência estética, embora o destino seja o mesmo. A experiência estética proporciona um conhecimento incoativo, não racional nem temático, de cunho essencialmente emocional. Trata-se de uma aproximação do Ser supremo por meio da sensibilidade, que se encanta com a beleza imperfeita do mundo, intuindo nela os reflexos da Beleza imune à feiura e às nossas apreciações parciais. Quem faz a experiência do belo, para além de todas as modas, encontra-se com o Ser em todo o seu esplendor, mesmo que este só lhe apareça na limitação de nossa condição psicossomática. Com os lampejos do transcendental Belo, a vida se ilumina de Deus e segue em busca do seu fim último.
Quem sou eu
- Tarcísio Bráulio Gonçalves
- Sou cristão sem domicílio eclesiástico, sou herege de religião sem amor, sou ateu de deuses tiranos, sou poeta da alegria e da dor.